Quarta, 28 Agosto 2013 18:12

DIA DO PSICÓLOGO - Por Daniel Kazahaia

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HOMENAGEM AOS PSICÓLOGOS

Por Daniel Kazahaya

Gostaria de poder falar um pouco sobre o que é ser Psicólogo, mas, já de início sinto que a missão será frustrada. De fato, jamais conseguiria generalizar e expressar a experiência de cada profissional ao mergulhar nas veredas deste fazer psicológico.

Vou compartilhar, então, um pouco daquilo que tenho vivido e que tenho visto por ai convivendo diariamente com algumas dezenas e centenas de psicólogos

Na “Crônica da Loucura”, divertidíssima, diga-se de passagem, Luís Fernando Veríssimo faz uma brincadeira com os psicólogos, dizendo que:

“Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros  loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou”            

É comum também escutarmos essa brincadeira de amigos e colegas. “Psicólogo é tudo louco!”.

Talvez eles e o Veríssimo tenham um tanto de razão em dizer isto. Claro, antes devemos argumentar que se trata de uma “loucura” de outra qualidade, uma “loucura” boa por assim dizer. Mas então o que seria uma loucura boa e uma loucura ruim? Bom, se entrarmos nessa discussão vamos acabar nos perdendo por objetivos diferentes. E, só de entrar nesse papo da loucura, muitas pessoas já logo dizem:

“Nossa, que papo de louco!”.

E assim nos aproximamos mais da definição dessa “loucura” que seria intrínseca aos psicólogos. A “loucura” que leva a pessoas a pensar profundamente sobre estas coisas que podem ser “loucas” por serem muitos difíceis de falar, pensar, de aceitar, de viver ou mesmo de pôr em palavras.

Da minha parte, eu sei que tenho um tanto suficiente de experiências, de alegrias e de sofrimentos, que me mantém curioso sobre a vida, sobre o ser humano, e sobre o viver.

Estas experiências que me impulsionam constantemente para investigar isto que seria psicológico, ou seja, como é que o ser humano vive e se desenvolve, e como é que alguém supostamente poderia auxiliá-lo nesse viver. Creio que essa “loucura”, ou seja, essas experiências de vida que impulsionam o psicólogo a se debruçar sobre a arte do viver, deva ser realmente um fator essencial a estes profissionais.

A Psicologia é uma ciência muito nova. Não chega a ter 200 anos. Comparando com a física e a matemática que estão por ai já faz milhares de anos. Podemos dizer que a psicologia é uma jovem ciência que, no entanto, já se espalhou mundo afora.

A Psicologia também não é única, ela é um universo dentro dela mesmo. Existe uma variedade de “psicologias”. Existe a Psicanálise de Freud, o Behaviorismo de Skinner, o Psicodrama de Moreno, o Cognitivismo, a psicologia existencial, enfim. Uma grande variedade de ciências que poderíamos dizer “psicológicas” e outras que inclusive se dizem não “psicológica” como Psicanálise, mas que a senso comum acabam se tornando muito próximas.

Portanto, também existem psicólogos de todos os tipos. Então, generalizações sobre o profissional psicólogo acabam sendo imprecisas.

A própria Psicanálise apresenta uma série de vertentes que divergem em boa quantidade sobre a concepção de sujeito psíquico e sobre os objetivos terapêuticos. Temos a psicanálise freudiana, lacaniana, winnicottiana, enfim.

Uma característica importante do psicólogo é, com certeza, a persistência. Sim, os desafios para se formar terapeuta são inúmeros. Vejamos Freud, por exemplo, ao iniciar seus estudos sobre as histerias descobriu uma série de fatores que as pessoas da época resistiam fortemente em aceitar. A principal delas poderíamos dizer que foi a sexualidade humana e sua importância na formação dos sintomas neuróticos. Até então, os profissionais de saúde da época jamais relacionariam distúrbios psíquicos com sexualidade e numa sociedade extremamente conservadora como naqueles tempos, alguém afirmar algo dessa ordem era fazer como Copérnico ao expor sua teoria do Heliocentrismo. Copérnico “arriscou a pele” para defender sua teoria de que era Sol que estava no centro do universo e não a Terra.

Freud, do mesmo modo, pagou um grande preço por afirmar o papel da sexualidade que estaria presente desde sempre, inclusive nas crianças.

A persistência, portanto, sempre foi uma característica importante da curiosidade psicológica. A persistência e as teorias de Freud acabaram provando sua validade e eficácia clínica, hoje muitos filósofos e cientistas consideram sua teoria como uma das três grandes revoluções de pensamento da humanidade ao lado da teoria já citada do Heliocentrismo de Copérnico e da teoria da evolução das espécies de Darwin.

Na atualidade, é preciso uma persistência enorme para manter, ao mesmo tempo, aquilo que sustenta a prática clínica que é chamado de tripé psicanalítico: a análise pessoal do terapeuta, supervisão de casos e estudo teórico. É justamente por essa persistência que o Psicólogo é um dos profissionais que mais de reciclam profissionalmente.

Quando o psicólogo se forma na graduação ele logo descobre que aprendeu muito na faculdade e ao mesmo não sabe muita coisa. Ele aprendeu de um modo geral sobre as várias escolas de psicologia, mas nenhuma em profundidade. Ele, então, percebe a enrascada na qual entrou. Estudou 5 anos para ser apenas um iniciante!

Eu ainda escuto esse tipo de coisa mesmo depois de 5 ou 6 anos de formado.

“Calma, você está iniciando sua carreira. Ainda tem um longo caminho pela frente”.

Tudo bem posso entender que demora um longo tempo. Mas espera aí, faz 10 anos que estudo isso o dia inteiro e ainda sou um iniciante?

Pois é, veja o tamanho da persistência que o Psicólogo tem que ter. 

Na prática clínica o testemunho da intimidade das vidas das pessoas que depositam tamanha confiança nos psicólogos é a grande gratificação. Realmente é fantástico vivenciar a melhora de um paciente que sofria tanto antes de procurar ajuda. Por outro lado a profissão é muito solitária, o psicólogo não tem platéia. Muitas vezes o paciente precisar resolver certas situações de suas vidas “brigando” com o terapeuta, o que Freud chamou de transferência negativa. Às vezes passamos muito tempo servindo de alvo para os “inimigos” do paciente, por assim dizer.

Por fim, tem outro lado de que muitas pessoas acham que psicólogo é uma pessoa muito equilibrada, que não tem problemas, sabe ponderar e tem algo como uma sabedoria sobre os dilemas da vida. Não sei se isto realmente acontece, mas acredito que em grande parte pode até ser.

A vida tem suas dificuldades, e tudo mundo tem problemas. Inclusive a definição de saúde sempre está implicada em doença, pois saúde sem doença é sintoma.

Mas acredito que diante dessa longa jornada que é a formação do psicólogo, mais o testemunho e o atendimento de inúmeros pacientes, levam o profissional a ter uma boa noção do viver e do desenvolvimento humano.

Talvez a grande mensagem da terapia seja um dia conseguir ter a capacidade de sentir o Ser. Algo como:

“Eu sou assim. Gosto de ser assim e reconheço meus minhas dificuldades. Consigo manter uma vida criativa frente ao mundo e as pessoas. Me sinto e sou responsável pelas minhas atitudes na atividade e na passividade e, em parte, pelo mundo que me circula”

              E quando vemos que nossos pacientes conseguiram alcançar algo assim em suas vidas, que podem retomar ou recriar seus caminhos diante de todo o sofrimento que carregavam, bom, então esse é o verdadeiro “Dia do Psicólogo!”

Por Daniel Kazahaia – Psicólogo -http://www.psicoanalise.org/

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